Felinos

Felinos brasileiros ameaçados de extinção


Palheiro, maracajá, mourisco ou jaguarundi são nomes estranhos para quase todo mundo, mas eles identificam algumas das espécies de felinos do Brasil, que infelizmente, estão ameaçadas de extinção. Eles estão entre os mais belos animais da nossa fauna silvestre e também entre os menos conhecidos.
“O que você tem: uma confusão muito grande entre os animais. Nós temos oito espécies de felinos e, principalmente, os pequenos felinos são muito confundidos com filhotes de onça. É a onça, seja ela pequena ou grande, é o bicho perigoso”, explica Jorge Bellix de Campos, da ONG Associação Matar Ciliar.
Achar que a jaguatirica é um filhotinho de onça até que não causa espanto. De fato, eles são parecidos. Mas mesmo entre os bichos grandões existe confusão.
A veterinária Cláudia Andrade, que é médica veterinária e que trabalha com as onças da região amazônica vai poder esclarecer essa dúvida: qual a diferença entre a onça preta e a onça pintada?
“Em termos de espécie não existe diferença nenhuma, a onça pintada e a onça preta são da mesma espécie, pantera onça. A diferença é a produção de melanina da onça preta é muito maior, por isso ela fica com essa coloração enegrecida, e as manchas só são visualizadas sob luz solar ou quando se está muito próximo dela. Aí é muito perigoso”, explica a veterinária Cláudia Andrade, do zoológico de Carajás (PA)
E por falar em manchas é bom saber que elas são características muito especiais desses bichos.
“Cada espécie de felino tem um padrão específico de machas, diferenças de coloração e pelagens. E, no caso das onças pintadas, cada uma tem o seu padrão de manchas que é individual, como uma impressão digital. Então, por comparação dá para identificar os indivíduos”, diz a pesquisadora da Reserva Ecológica de Linhares (ES) Ana Carolina Silva de Araújo.
Ela sabe o que fala, afinal é uma caçadora de onças e realiza suas "caçadas" numa das maiores reservas ambientais do Espírito Santo. Explica direito, que história é essa de caçar onças aqui dentro de uma reserva ecológica?
“É, na verdade, eu sou uma caçadora de imagens e eu uso uma armadilha fotográfica”, diz Ana Carolina Silva de Araújo.
As câmeras utilizam sensores de movimento. Tudo que passa diante delas é registrado. Para os pesquisadores, essa técnica é importante porque dispensa a presença humana e permite que os animais se comportem de forma mais natural, sem medo ou desconfiança de estarem sendo observadas.
“Como é um casal e são indivíduos adultos, e pela posição que eles estão na foto, eu acho que é um comportamento de depois da cópula, comportamento de corte do casal. Então, em uma foto, às 3h30, eles estavam preparando alguns filhotinhos”, conta a pesquisadora da Reserva Ecológica de Linhares.
Tomara que eles tenham tido sorte, pois as ameaças que espreitam os felinos são muitas.
“Não só pela dificuldade de reprodução, mas pelo ambiente estar cada vez mais restrito, então o desmatamento, queimada, às vezes ate a caça predatória”, diz a pesquisadora Mara Cristina Marques, do zoológico de São Paulo.
Os felinos precisam de grandes áreas para sobreviver. Quando a casa deles é destruída, o contato com o ser humano torna-se quase que inevitável, como ocorreu em Brasília. Por causa de um incêndio em uma reserva ambiental, uma onça foi obrigada a procurar abrigo na área urbana da cidade.
“Eu não imaginei que fosse uma onça. Eu tenho vizinhos de todos os lados, como é que essa onça entrou na minha casa e ninguém viu? Com a destruição do Jardim Botânico, a queimada do Jardim Botânico, ela ficou sem o habitat natural dela, não foi culpa dela, ela estava morando lá numa boa, feliz da vida. Tiraram o habitat, ela perdeu comida, lugar para morar, o cheiro de queimado horroroso”, aponta a professora Maria Cecília Borisson.
“Os animais estão ficando encurralados em seu território. Eles necessitam se alimentar, de ter um local protegido como nós temos”, explica a veterinária Cléia Magalhães.
Neste caso, a história teve um final feliz. Ninguém se feriu e a onça foi resgatada.
“A onça que capturamos estava em cima de uma árvore. Havia muitas pessoas embaixo da árvore, ela não se movimentava. Acho que ela estava com mais medo da gente do que nós dela”, lembra a veterinária Cléia Magalhães.
“As pessoas vinham, paravam, perguntavam para o meu caseiro: o que era? E ele falava: era uma onça! E as pessoas olhavam assim e ninguém acreditava. Eu moro na capital federal, entendeu? O palácio do Presidente está aqui. Por que ela não foi para o palácio do Planalto, podia ter ido, não poderia? Do jeito que ela veio para cá? A residência do Lula é aqui perto. Se você parar para pensar, é uma coisa maluca”, conta a professora Maria Cecília Borisson.
Devemos parar e pensar sobre o que estamos fazendo com o meio ambiente, pois os felinos, mesmo sendo animais fortes e valentes, têm um inimigo imbatível.
“Não existe nenhum outro inimigo a altura dele que pudesse fazer tanto estrago quanto o ser humano faz. O ser humano consegue estragar desde uma espécie muito pequena até um animal no topo de cadeia como um grande felino, como a onça pintada ou a suçuarana”, afirma Mara Cristina Marques.
Nós temos que mudar essa realidade. Para começar nada melhor do que conhecer mais sobre essa incrível diversidade de gatos selvagens que o Brasil possui.
No próximo domingo: você sabe de onde vem e como vivem os peixinhos ornamentais? Esse é o Brasil e o Brasil é o bicho!

Projeto dá esperança a felinos em extinção na América do Sul



Uma nova esperança se abre para dez espécies de felinos da América do Sul que estão em perigo de extinção, graças a um ambicioso projeto de preservação coordenado por cientistas argentinos e espanhóis. O objetivo é manter a diversidade genética destes animais ameaçados mediante o desenvolvimento de biotecnologia reprodutiva e, de forma paralela, iniciar um Banco de Recursos Genéticos (BRG) de felinos silvestres sul-americanos.
"O método de trabalho consiste em obter espermatozóides, tecidos e células, conhecer através desse material como funciona a reprodução nas distintas espécies e, finalmente, desenvolver bons protocolos de congelamento para preservar tudo", segundo um dos responsáveis pela iniciativa, o espanhol Eduardo Roldán.
"O que perseguimos é o intercâmbio de genes entre distintas povoações para evitar a perda da variabilidade genética e o aumento da consangüinidade", explicou outra das impulsoras da pesquisa, a também espanhola Monserrat Gomendio, durante a apresentação do projeto nesta sexta-feira, em Buenos Aires.
O BRG será instalado no Zoológico da capital argentina e no Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri e seus recursos serão usados para melhorar a reprodução tanto de povoações em cativeiro como daquelas que vivem em liberdade.
Manter a rica biodiversidade da América do Sul é a meta fixada pelos especialistas envolvidos neste programa e, por isso, todos reconheceram que não fecham a porta a nenhuma das tecnologias necessárias para conseguir esse objetivo, incluindo a clonagem.
Para Roldán, esta prática se transforma em muitas ocasiões em um seguro de vida porque permite, por exemplo, guardar as células de um animal que morreu jovem para, posteriormente, intervir na cadeia reprodutiva de sua espécie.
O projeto se centra nos felinos porque são animais "emblemáticos", como definiu Gomendio, mas também "muito vulneráveis".
"São muito afetados pelas alterações de seu habitat e a redução das espécies que utilizam como presas, além de serem vítimas da caça intensiva devido ao valor de suas peles", afirmou.
O jaguar, o puma e o gato andino são algumas das espécies cujo risco de extinção é maior na América do Sul.
Segundo Luis Jácome, da Fundação argentina Bioandina, "a caça intensiva representava o principal perigo para estes animais há alguns anos, mas agora o problema está na perda de espaços naturais como conseqüência das plantações de soja".
São cerca de um milhão e meio as espécies de animais registradas e conhecidas pelo homem e, no entanto, os especialistas calculam que em todo o planeta pode haver entre 15 e 30 milhões de tipos distintos, cujo risco de desaparecimento ultrapassa em muitos casos as extinções maciças de eras passadas.
"Devemos adquirir um compromisso ético com a natureza e conservar, com projetos como este, aquilo que não somos capazes de gerar com nossos próprios meios", comentou Lino Barañao, do Instituto Argentino de Biologia e Medicina Experimental.
Impulsionado pela Fundação BBVA e elaborado graças à colaboração da Fundação Bioandina e do Instituto de Biologia e Medicina Experimental da Argentina com o Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) e a Universidade de Castela-La Mancha da Espanha, o projeto suscitou interesse em outros países sul-americanos, como o Brasil e Uruguai.